Em meados de 1995, conversando com um amigo de pregão, recebi o alerta sobre a crescente dominância das ordens eletrônicas, que já ganhavam força nos mercados asiáticos. Alguns anos depois, fui convidado pela então BMF&F para testar uma plataforma rudimentar, enviando ordens no mercado futuro de dólar e índice. Naquele tempo, os mini contratos sequer existiam e a negociação ainda preservava muito da interação humana do pregão. Nove anos mais tarde, o mercado brasileiro cedeu à modernização e o pregão físico foi extinto. A transição não foi simples. Os algoritmos passaram a gerar uma impressão diferente dos movimentos, antes captados com mais clareza pela observação direta. O Tape Reading eliminou parte do “feeling” que se tinha, substituindo as entonações de voz e até a expressão facial dos operadores — algo que funcionava como um “Face Reading” improvisado — por telas e gráficos. Quando a tecnologia mudou a lógica do mercado Aos poucos, todos se renderam ao universo das operações tecnológicas. Essa transformação atraiu uma nova leva de participantes, muitos inspirados em ícones como Warren Buffett, mas que acreditavam que o mercado se resumia a apertar botões e interpretar padrões repetitivos. Como esperado, boa parte desses investidores acabou se frustrando, acumulando perdas significativas por falta de preparo e gestão de risco. O cenário ganhou um novo capítulo com a popularização do marketing digital agressivo no setor financeiro. Surgiu a era do “arrasta pra cima”, com promessas rápidas e acesso facilitado ao mercado para qualquer pessoa, independentemente de idade, classe social ou capital inicial. Apesar de ampliar o alcance da bolsa, essa onda levantou questões sobre a experiência e responsabilidade de quem conduzia tais promessas. Quando o investimento vira aposta A partir desse momento, muitos começaram a tratar operações financeiras como apostas. Esse fenômeno se intensificou com a explosão das bets, plataformas de apostas esportivas que, em pouco tempo, ultrapassaram o número de investidores ativos na B3. Ao contrário do investimento fundamentado, esse modelo se baseia na incerteza e, muitas vezes, na esperança de resultados improváveis, comprometendo o orçamento de inúmeras famílias. O contraste é significativo: de um lado, a B3 construiu ao longo de décadas a maior bolsa de valores da América Latina; de outro, as bets avançaram rapidamente, oferecendo um modelo de “ganhar ou perder” que pouco se relaciona com o conceito tradicional de investimento. O que são e como funcionam os Copy Trades? Mais recentemente, o mercado viu crescer a oferta de Copy Trades — serviços que permitem replicar automaticamente operações de traders experientes. As promessas são sedutoras: “Largue seu emprego e fique rico comigo.” É importante destacar que o produto em si não é necessariamente ruim. Ele pode atender a investidores mais arrojados, que conhecem e aceitam os riscos envolvidos. No entanto, a deturpação do conceito — transformando-o em promessa de ganhos diários sem esforço — repete erros já vistos no passado. O ponto central é que, mesmo com tecnologia avançada e estratégias automatizadas, o sucesso no mercado continua exigindo conhecimento, disciplina e controle de risco. Sem esses elementos, a tecnologia apenas acelera a velocidade das perdas. O que podemos esperar para o futuro? Apesar dos excessos e distorções, há espaço para acreditar que parte desse movimento é passageira. Quando as estratégias milagrosas deixarem de entregar resultados consistentes, apenas os profissionais e investidores comprometidos permanecerão ativos. Esses sobreviventes terão aprendido, muitas vezes da forma mais difícil, que mercado financeiro não é cassino e que decisões baseadas em análise sólida tendem a resistir ao tempo. Enquanto isso, para quem deseja entrar ou se manter no mercado, a recomendação permanece: buscar formação adequada, compreender os riscos e desconfiar de promessas de lucro fácil. Afinal, no longo prazo, é a combinação de conhecimento e responsabilidade que define quem realmente prospera no mercado.